segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ventos contrários para a utopia renovável alemã

Há uns dias escrevi que o wishful thinking alemão anti-nuclear e pró-renovável vai durar mais tempo do que o japonês graças às ligações de alta-tensão internacionais que a Alemanha tem com os seus vizinhos e que permitem amortecer a intermitência das suas fontes renováveis. Não obstante, os alemães cospem na mão que lhes dá de comer, isto é, atacam a forma como a Polónia ou a República Checa produzem energia eléctrica. Isto apesar de dependerem destes dois países para lhes fornecer energia eléctrica quando a produção renovável é insuficiente na Alemanha. E também dependem das suas redes quando o existe produção renovável excessiva.


Infelizmente o vento não sopra onde se quer e no caso alemão ele é mais forte no Mar do norte onde se estão a construir caríssimos parques offshore. Porém o grande consumo alemão situa-se no sul do país nas cidades industriais como Munique ou Estugarda. E a rede eléctrica alemã está no limiar da sua capacidade e não dispõe de linhas de alta-tensão em quantidade suficiente a atravessar o país de norte a sul. E não disporá tão cedo, não só porque obrigará a um investimento muito avultado, mas também porque os mesmos grupos "verdes" alemães que querem trocar nuclear por renováveis boicotam a edificação de postes de alta-tensão na paisagem alemã. A prazo isso poderá significar que em momentos de produção máxima dos parques offshore esta venha a ser superior à capacidade de escoamento da rede, um problema que já acontece na China e na Escócia.

Este desperdício poderá acontecer mais cedo do que o previsto. Até agora a Alemanha exportava para os países vizinhos o excesso de eólica mas o jornal alemão Die Welt publicou um artigo (que o blog NoTricksZone traduziu) que dá conta que a Polónia e a República Checa pretendem instalar meios de bloquear a entrada nas suas redes dos picos de produção renovável alemã. A Agência alemã para a energia (dena) comentou assim a decisão dos vizinhos do leste:
The use of phase shifters will have the consequence that windparks in Eastern Germany will have to be shut down more often in the future because the power will have no way of being delivered to the markets.
Há semelhança daquilo que acontece na Escócia os produtores eólicos alemães não sofrerão com este problema já que recebem sempre por aquilo que produzem, mesmo que essa energia não seja distribuída na rede.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Consenso, que consenso?

Os defensores do aquecimento global ou das alterações climáticas antropogénicas gostam de evidenciar que existe consenso entre a comunidade científica sobre a responsabilidade que o Homem está a ter sobre o clima do planeta. A ciência não tem nada que ver com consensos de opinião mas com robustez de dados e estudos científicos. E até hoje nenhum estudo científico mostrou que a actividade humana tenha tido ou venha a ter um impacte mensurável sobre o clima.


Não obstante a sua irrelevância, o suposto consenso não existe, como não existe nada daquilo que os evangelistas do aquecimento global gostam de sugerir. Pelo contrário, aquilo que se assistiu desde 2009 quando rebentou o escândalo Climategate, foi uma abertura cada vez maior dos media a dar voz aos inúmeros cientistas que refutam o alarmismo do aquecimento global. O The Wall Street Journal é um dos orgãos de informação que permite a exposição dos argumentos céticos. Um exemplo é este artigo de opinião assinado por 16 nomes ligados a áreas científicas e do qual destaco este paragrafo:
Alarmism over climate is of great benefit to many, providing government funding for academic research and a reason for government bureaucracies to grow. Alarmism also offers an excuse for governments to raise taxes, taxpayer-funded subsidies for businesses that understand how to work the political system, and a lure for big donations to charitable foundations promising to save the planet.
Mesmo entre  a opinião pública o consenso não existe e cerca de metade dos americanos, ingleses e canadianos não tem certezas de que o aquecimento global seja uma realidade e de que o Homem seja responsável por ela.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O bom senso regressa ao Japão

Nenhum país industrializado pode viver sem geração eléctrica a partir de fonte nuclear. Pelo menos sem grandes custos ambientais ou económicos. De entre estes o Japão é um dos casos mais críticos de "dependência" nuclear. O país do sol nascente não tem reservas de combustíveis fósseis, não tem reservas hídricas nem vizinhos com os quais equilibrar produção eléctrica intermitente como escrevi aqui. Basicamente o fecho de centrais nucleares no Japão obrigaria o país a ficar dependente do gás natural russo. Parece-me que na prática isso significa que o Japão seria um dos últimos países do mundo a abandonar a energia nuclear.


Como quase tudo aquilo que é incontornável, acontece mais tarde ou mais cedo, com mais ou menos custos, mais ou menos dor. Nesta medida não se estranha este artigo do New York Times que dá conta que o Japão abandonou a ideia de abandonar o nuclear até 2040.

Na Alemanha a virtude do nuclear vai demorar mais tempo a revelar-se. Por duas razões. Primeiro, a visão ecofascista, neo-socialista, utópica é mais forte por lá. Segundo, os alemães podem sempre comprar energia nuclear aos seus vizinhos franceses, checos ou austríacos. Veremos como ficam as coisas depois das eleições de 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Instituto alemão confirma injustiça da microgeração

O blogue NoTricksZone divulgou um estudo do Cologne Institute for Economic Research (IW) que confirma aquilo que já tinha denunciado aqui e que é óbvio para alguém com bom senso: a microgeração eléctrica subsidiada com tarifas feed-in (tal como praticada na Alemanha ou Portugal) rouba aos pobres para dar aos ricos.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A teoria do arrefecimento global

No começo dos anos 70 vários cientistas levantaram a hipótese de a Terra estar a entrar numa fase prolongada de arrefecimento global. Os registos mostravam que a temperatura média da Terra estava a descer desde 1940 e alguns cientistas temeram que essa tendência se prolongasse por mais décadas. Houve até quem especulasse que a subida da emissão de CO2 verificada no boom económico pós-Segunda Grande Guerra pudesse ser responsável. O debate esteve aceso e fez mesmo capa da revista TIME por mais do que uma vez.

Porém, em 1975, contra as previsões, e numa altura em que a crise do petróleo fazia descer o consumo de combustíveis fósseis, a temperatura média começou a subir e a teoria do arrefecimento global foi abandonada.

As temperaturas subiram de 1975 até 1997…




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A verdade sobre o degelo do Ártico

O IPCC e os militantes do aquecimento global antropogénico socorrem-se de alguns slogans emblemáticos para manter a chama da mentira bem acesa. Uma deles é que o Urso polar está ameaçado de extinção devido ao desaparecimento do gelo ártico. Porém não há registos de uma diminuição significativa da população do Urso polar. E como quase ninguém vive nos territórios habitados por esta espécie pouca é a opinião pública capaz de comprovar ou desmentir a propaganda apocalíptica do IPCC.

A razão apontada para o desaparecimento do Urso polar é a diminuição do gelo ártico. Mas será assim? Se consultarmos o site da NASA assim parece. No gráfico que se encontra abaixo a linha mostra a evolução da extensão gelo do Ártico. De 1980 até hoje essa extensão teve uma redução de cerca de 50%. 

O que mais me saltou à vista no gráfico não foi o decréscimo de gelo. O valor vai ao encontro daquilo que quase todos os jornais noticiam regularmente. O que estranhei foi o gráfico não conter médias anuais.

Fui consultar o site de outra agência espacial, desta vez a Japan Aerospace Exploration Agency (JAXA) onde se encontra este gráfico com os ciclos anuais naturais de gelo e degelo do Ártico desde 1980. E o que se vê no gráfico? Que em Setembro, como seria de esperar, é quando a extensão de gelo atinge o seu mínimo. Mas, e isto sim é interessante e revelador, é também o mês em que existem maiores variações entre anos.


Em Setembro de 2012 bateu-se no mínimo dos últimos 50 anos. Mas em Outubro e Novembro deste ano a velocidade de recuperação de gelo no Ártico também está a estabelecer recordes. Se olharmos para o filme completo concluímos que de 1980 a 2013 o Ártico perdeu 8% (de 13 para 12 Mkm2) da sua massa gelada e não os 50% que o gráfico da NASA sugere.

É uma diminuição, mas uma diminuição que os especialistas consideram normal, e que seria de esperar quando de 1980 para hoje a Terra aqueceu. É uma variação natural longe do cenário catastrófico de desaparecimento do habitat do Urso polar que o IPCC tanto gosta de publicitar.

O mínimo do ano em Setembro tem relevância para estabelecer que parte do gelo (mais denso) resiste à sasonalidade. Mas mostrar um gráfico apenas desse mês como a NASA faz, ainda por cima o mês em que mais variação houve, é contar parte da história e convidar ao alarmismo.

O departamento da NASA que estuda o clima é o Goddard Institute for Space Studies (GISS) e é dirigido pelo físico James Hansen.

James Hansen deu visibilidade internacional ao aquecimento global antropogénico (AGA) quando discursou no Congresso Americano em 1988 perante, entro outros, o senador Al Gore. O discurso de Hansen fomentou a criação do próprio Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) nesse mesmo ano. Hansen é conhecido como o Pai do AGA.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Alentejo será um deserto?

Como divulguei no post anterior, um dos revisores  do relatório AR5 do IPCC decidiu colocar a actual versão perliminar online. Contudo antes já o jornal alemão Der Spiegel tinha escrito um artigo a questionar algumas alegações que constam no documento do IPCC. Uma delas é que algumas regiões do planeta à latitude do sul da Península Ibérica correm o risco de se desertificarem.

According to the models, subtropical regions, in particular, are expected to grow drier, with new arid zones appearing in the southern United States, South Africa and Mediterranean countries such as Greece, Italy and Spain.

Ou seja, de acordo com os modelos do IPCC, o Algarve e o Alentejo estão destinados a ser desertos se nada for feito em relação ao corte na emissão de CO2.

O Der Spiegel contrapõe com dados: Real measurement data from the last 60 years, though, show no such trend toward aridity. Those regions do experience frequent dry periods, but not more often than they have in the past.

Isto é, não há evidências científicas nenhumas daquilo que o IPCC sugere. E escrevo sugere porque o IPCC nunca se compromete com nada. Os seus relatórios nunca afirmam nada, sugerem. Usam palavras como talvez, eventualmente, é esperado, pode acontecer, etc.

Mas logo o jornal alemão avança com... one possible explanation is that the slight global warming that has occurred so far is not yet enough to cause observable changes in precipitation.

Claro, o Alentejo ainda não é um deserto porque o aquecimento global que o Homem provoca ainda é pequeno. Mas se nada for feito lá chegaremos!

Vamos então pensar um pouco, não com cenários hipotéticos mas com dados reais.

Em baixo encontra-se um gráfico da precipitação em Portugal nos últimos 50 anos que retirei daqui. Como é perceptível a precipitação não se alterou neste último meio século. Vamo imaginar que nada é feito para mitigar a emissão de gases de efeito de estufa. Mantendo-se a quantidade de água nos solos, aumentando os níveis de CO2 (que se verifica) e da temperatura (que o IPCC alega mas que não acontece há 15 anos) na atmosfera o que é que se pode esperar que aconteça?

Qualquer agricultor com estufas diria que haverá aumento do número e dimensão de árvores e plantas mas o IPCC prevê um deserto!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mais um embaraço para o IPCC

O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) não tem tido vida fácil nos últimos tempos. As vozes cépticas são cada vez mais e conseguem ser ouvidas em cada vez mais orgãos de media. E o clima da Terra teima em não colaborar com a visão apocalíptica do IPCC.

Esta semana o IPCC sofreu mais um revés. Um dos revisores do próximo relatório do IPCC designado AR5 decidiu escapar para a internet o draft do documento e explica aqui as razões para o ter feito. Esta fuga é particularmente útil pois é sabido que, depois da revisão técnica feita por especialistas, os relatórios do IPCC sofrem uma revisão política de forma a "alinhar" o relatório com a agenda do IPCC.

Um dos dados mais emblemáticos a que foi possível ter acesso nesta fuga de informação foi este gráfico que sobrepõe os vários cenários previstos pelos modelos do IPCC (bandas verde, laranja, amarela e azul) e as temperaturas reais (pontos negros). É perfeitamente visível que, desde que as temperaturas estabilizaram em 2000, há uma divergência entre o que o IPCC prevê e aquilo que está a acontecer. Esta divergência fez com que as temperaturas de 2011 fiquem fora de qualquer banda, situação que se deverá repetir em 2012 que está a ser mais frio do que o ano transacto.


sábado, 31 de março de 2012

Maioria de americanos apoia energia nuclear

A Gallup é uma empresa americana que tem entre as suas especialidades a realização de sondagens. Uma das que leva a cabo desde 1994 visa aferir o sentimento do povo americano em relação à energia nuclear.

Este ano 57% dos entrevistados mostraram-se favoráveis à utilização desta fonte para produção de energia eléctrica e consideram as centrais nucleares globalmente seguras. Os resultados dos vários anos mostram que, em quase 20 anos, o apoio que os americanos lhe dão não se tem alterado significativamente. O acontecimento em Fukushima, há pouco mais de um ano, não influenciou praticamente o sentimento americano a este respeito.

Como é normal quando se aborda este assunto as mulheres, que têm uma percepção de perigo mais aguçada dos que os homens, têm muito menos confiança na solução nuclear. Apenas 27% consideram a energia nuclear segura contra 71% dos homens inquiridos.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Comparação de emissão de poluentes entre fontes eléctricas

Ainda que se fale maioritariamente nele o dióxido de carbono (CO2) é o menor dos males produzido pelas diferentes fontes de energia em termos de poluentes atmosféricos. Bem pior são os efeitos de dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de azoto (NOx) produzidos nas combustões. 

Por recorrer à combustão a produção elétrica através da queima de biomassa está longe de ser uma proposta ambientalmente vantajosa para produção de energia eléctrica. À semelhança da co-geração devem ser aproveitados os recursos florestais até porque a queima é habitualmente feita longe dos centros urbanos. Mas jamais criar uma indústria florestral exclusivamente centrada na produção de biomassa. Na minha opinião a energia eléctrica proveniente da biomassa e co-geração deviam ter prioridade máxima na distribuição.

Das fontes que não utilizam a combustão para gerar energia as eólica e fotovolticas são traídas pela baixa densidade que obriga ao fabrico de muito equipamento com consequências ambientais. Daí terem menos performance ambiental do que as fontes nuclear ou hidroelétrica.

Tudo pesado a hidroeléctrica é provavelmente a melhor fonte de energia eléctrica que existe mas tem as limitações de só ser possível em países com recursos hídricos. A energia nuclear polui pouco mais e não tem restrições geográficas e por isso deve ser a base da produção eléctrica em países preocupados com a sustentabilidade ambiental.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Analogia entre produção de electricidade e transportes

A forma como a produção eléctrica em Portugal está organizada parece irreal. Confesso que ainda hoje preciso de fazer um esforço para reconhecer que de facto é assim mesmo que ela está planeada. Como muitas pessoas não entendem na íntegra como funciona vou fazer uma analogia com o sector dos transportes que me parece ser elucidativo. Imaginemos que a electricidade é o transporte urbano e que o sector electroprodutor é representado pelos meios de transporte.

Os táxis (que são eléctricos) representam as fontes renováveis intermitentes (eólica e solar). Os autocarros equivalem à produção ordinária (termoeléctricas e barragens).

Os utentes são obrigados por lei a utilizar o táxi sempre que um esteja disponível mesmo que estejam numa paragem. Apesar do custo ao quilómetro do táxi ser superior ao do autocarro o preço de transporte não é diferenciado. Existe um bilhete válido para os dois tipos e o seu preço varia apenas com a distância percorrida e não o meio de transporte. O preço deste bilhete não cobre os custos de transportar pessoas de táxi por isso o Estado paga aos operadores de táxi um valor fixo por esse serviço (subvenções às renováveis - FIT).

Para além dos táxis, o Estado também atribui incentivos a proprietários privados de pequenas motos eléctricas para que estes transportem passageiros (micro-geração). Não existe obrigação de o fazer é escolha dos proprietários. Estes incentivos são de tal forma elevados que pagam a sua aquisição. Existem pessoas que acham possível um dia o transporte nas cidades ser feito exclusivamente nesta pequenas motos.

Também existe apoio estatal para as carrinhas de distribuição de mercadorias transportarem passageiros no espaço que tiverem livre (co-geração). É uma forma de aproveitar espaço que d eoutra forma se desperdiçava. No entanto, ainda que o negócio destas carrinhas seja a distribuição, a remuneração é tão elevada que algumas carrinhas circulam sempre vazias apenas interessadas em angariar passageiros.

À semelhança dos táxis também as pessoas são obrigadas a usar as motos e as carrinhas antes de irem de autocarro. O bilhete válido é o mesmo.

Os custos de se obrigar as pessoas a usar táxis, motos ou carrinhas quando podiam ir de autocarro são passados para os consumidores ao serem incluídos numa parcela do preço chamada Custo de Interesse Económico Geral (CIEG). Existe ainda outra parcela para manutenção de paragens, praças de táxi equivalente aos custos de rede eléctrica.

Os táxis têm uma capacidade limitada de passageiros transportados (baixa densidade de produção) e os taxistas têm horário livre (intermitência). O fluxo de utentes é conhecido mas o de táxis não. Isso faz como que o parque de táxis tenha de ser sobredimensionado ao mesmo tempo que a sua disponibilidade é aleatória. Para não provocarem engarrafamentos quando existem demasiados a circular existem parques de estacionamento que os acolhem (bombagem em barragens). Para mitigar falta de táxis a utilização da frota de autocarros não é optimizada para a procura. Está constantemente a circular independentemente de haver utentes nas paragens. Os operadores de autocarros recebem compensações sempre que circulam sem lotação esgotada, são os CMEC. Quanto mais táxis circulam e menos utentes necessitam de autocarros o valor de CMEC, FIT e aluguer de estacionamento aumenta.

Apesar do maior custo de se usar táxis eléctricos em vez de de autocarros o Estado considera vantajoso pois isso permite poupar na importação de combustíveis fósseis necessários ao funcionamento dos autocarros. No entanto, como quase toda a frota de táxis que opera em Portugal foi importada na realidade o serviço fornecido pelos táxis (equivalente à electricidade produzida pelas fontes renováveis) tem uma componente de importação tão ou mais elevada quanto os autocarros (fontes convencionais). 

A energia nuclear equivaleria ao metro. Não usa combustíveis fósseis, não polui e é capaz de transportar quantidades enormes de pessoas (elevada densidade produtiva). O metro é a forma mais eficiente de transportar passageiros em cidades e por isso deve ser a base de um sistema de transportes urbanos sustentáveis, tal como a energia nuclear deve fornecer a energia de base.

A capacidade de resposta do metro, quer na supressão quer na adição de oferta é inferior ao autocarro (pouca flexibilidade) e por isso deve ser o autocarro a cobrir picos de procura. Tal como as centrais de ciclo combinado e barragens na eletroprodução.

Um acidente numa linha de metro tem proporções mediáticas elevadas. Apesar de haver mais acidentes a envolver autocarros ou táxis. E de estatisticamente a probabilidade de se ficar ferido num acidente rodoviário ser superior ao de sofrer um acidente no metro. O paralelismo com a energia nuclear é exemplar.

domingo, 25 de março de 2012

Lisboa na vanguarda verde?

O jornal Expresso noticiou na edição da semana passada que a Câmara Municipal de Lisboa (CML) assinou um protocolo de cooperação com a agência governamental japonesa NEDO (New Energy and Industrial Technology Development Organization) para o desenvolvimento de projectos na área da gestão e eficiência energética. Entre as soluções a testar incluem-se naturalmente carro eléctrico, smart grids e edifícios inteligentes produtores de energia eléctrica. Previsivelmente a NEDO considera Lisboa uma parceira ideal para montar à escala de uma grande cidade projectos energéticos a maior parte deles altamente dispendiosos e pouco eficientes. Quase garantidamente o investimento ficará a cargo do município. Com que dinheiro seria interessante saber mas a CML já deu mostras de ter um wishful thinking na área da energia inabalável mesmo em alturas de austeridade.

É indiscutível que Lisboa é altamente apetecível para este tipo de experiências. Não só a gestão da cidade é favorável como Portugal é líder na integração de energias renováveis intermitentes e na instalação de postos de abastecimento para veículos eléctricos. Temos campo bem fértil para a plantação deste tipo de projectos. Que a colheita não é bem aquilo que Lisboa e o país precisa no campo e energético é menos relevante.

Dois conceitos fundamentais para a eficiência na Indústria são produção just in time e a economia de escala. O conceito de produção just in time (JIT), curiosamente aperfeiçoado no Japão, defende que a produção de um bem ou produto deve seguir o mais fielmente a procura sem necessidades de inventário ou armazenamento reduzindo por isso custos. A ideia de economia de escala é a de que o custo unitário de produção tende a diminuir com o aumento de unidades produzidas, dado que todas as empresas têm custos fixos independentes do seu output.

Estes são conceitos universais. Também já foram no sector eléctrico. Mas deixaram de ser com o advento das energias renováveis intermitentes e a microgeração. As renováveis intermitentes são a antítese do just in time e a microgeração é a negação das economias de escala. No entanto, é isso que a NEDO vai propor aos lisboetas.

Não contesto e reconheço que se pode fazer mais em eficiência energética de edifícios. Reconheço virtudes de um sistema de rede de distribuição mais inteligente. Mas querer desenvolver sistemas de armazenamento de energia eléctrica nos quais a divulgação do carro eléctrico se insere não faz sentido do ponto de vista técnico e ofende qualquer lógica económica. Da mesma forma pretender que edifícios urbanos produzam energia eléctrica em micro-escala é uma ideia demasiadamente ingénua para se continuar a ter em tempos tão difíceis. A sociedade portuguesa e os políticos portugueses ainda não se aperceberam que a ineficiência electroprodutora do país é um dos maiores elefantes brancos nacionais e uma das mais ruinosas políticas dos últimos 15 anos. A demissão de Henrique Gomes é só o começo de um processo que será certamente uma das pastas mais difíceis deste Executivo.

A jornalista Luísa Meireles que assina o artigo termina o texto referindo que o Japão está num processo de passagem da energia nuclear para as renováveis. É certo que, no rescaldo de Fukushima, a energia nuclear passou a ser menos popular entre os japoneses. Mas não é certo que o Japão a abandone internamente. Se o fizer é garantido que se o fizer terá importantes proporções ambientais e económicas.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Mais sobre a Portela+1

Num post anterior levantei a questão de se abrir um novo aeroporto em Lisboa (mesmo que com baixo investimento) quando a Portela ainda não esgotou a sua capacidade de tráfego. A localização urbana do aeroporto da Portela, ainda que condenada a prazo por razões ambientais e de segurança, é uma mais-valia competitiva da capital portuguesa face a congéneres europeias. A proximidade do aeroporto ao centro da cidade é um aspecto decisivo para gerar em Portugal tráfego de escapadelas de fim de semana ou conferências.

Relocalizar parte do tráfego aéreo para mais longe do centro terá um impacto negativo no número de passageiros que nos visitam. As companhias low cost sabem isso por isso não admira que a EasyJet não esteja radiante para sair da Portela. A menos que sejam dados incentivos suficientemente interessantes para esta mudança ou, dito de outra forma, se reúnam todas as condições.

Depois de Beja parece-me que pode estar em estudo outro elefante branco, daqueles que sobrevivem à custa de dinheiros públicos, assentes em vontade política pouco clara e não em razões objectivas de mercado.

terça-feira, 13 de março de 2012

Henrique Gomes demitiu-se

Não constitui surpresa a demissão de Henrique Gomes noticiada pelo Diário Económico. A história que culmina aqui e que tenho acompanhado no blogue é fácil de contar. A troika mandou, no acordo que estabeleceu com o estado português, terminar com rendas excessivas dadas a quase todos os intervenientes e fontes de produção eléctrica em Portugal. Henrique Gomes que tinha, na qualidade de Secretário de Estado da energia (SEE), a função de colocar no terreno as imposições da troika cedo esbarrou nos interesses dos pesos pesados do sector ou, dito de outra forma, os direitos adquiridos.

Em Novembro, Henrique Gomes apresentou o Plano Energético 2020 e não escondeu que o mesmo seria muito difícil de cumprir pois não tinha margem de ajuste e contava com receitas não garantidas, nomeadamente as provenientes da venda de créditos de carbono (que pessoalmente creio irão desaparecer nesta década). Na altura comentei que o Plano Energético tinha objectivos inconciliáveis e que a prazo algum deles teria de cair. Não foi o plano mas antes o SEE que caiu.

Já este ano, e antecipando a vinda da troika para avaliação do cumprimento do memorando, a Secretaria de Estado congelou novos projectos de produção em regime especial e encomendou um estudo de avaliação dos custos das rendas excessivas. Este estudo iria provocar uma reforma profunda do sector electroprodutor português e atacar a possível rentabilidade e até sobrevivência de muitas empresas.

Uma dessas empresas é a China Three Gorges (CTG). A empresa chinesa não comprou apenas a EDP a CTG, adquiriu a EDP inserida no actual esquema de remuneração da produção eléctrica portuguesa o que torna a utility portuguesa verdadeiramente apetecível. A estratégia da CTG passa em grande medida pelas fontes renováveis intermitentes e logicamente esta empresa quer que o sector continue viável em Portugal. A Associação que representa o sector, a Apren, ameaçou mesmo processar o Estado caso as subvenções desapareçam.

As utilities também deixaram recados caso de Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa, que ameaçou desviar investimentos para Espanha caso haja cortes de garantia de potência. António Mexia, CEO da EDP, com toda a naturalidade, defende que o sector eletroprodutor português é sustentável e aberto à concorrência. Relativamente ao défice tarifário, que tanto assustou Henrique Gomes, Mexia diz que ele desaparecerá até 2020.

Resumidamente, Henrique Gomes esbarrou com os interesse instalados de players habituados a um sector bem remunerado, sem concorrência e rendibilidades muito interessantes.

Há poucos dias, também no ministério da Economia, Sérgio Monteiro, secretário de Estados das Obras Públicas, mandou pagar à Lusoponte a compensação da não cobrança de portagens na ponte 25 de Abril em Agosto de 2011, só que em 2011 os utentes pagaram as portagens. Foi um exemplo de duplo pagamento a privados e portanto uma escandalosa violação do interesse público que devia ser defendida pela secretaria de Estado. No entanto, o bode expiatório nesta história foi a Estradas de Portugal (EP) que denunciou o caso. Quando o interesse público não é uma prioridade do ministério da Economia entende-se que a missão de Henrique Gomes estava condenada ao fracasso.

Os 2,5 mil milhões de euros de rendas que o ex-secretário de estado queria cortar irritaram sobretudo a EDP e a gota de água foi na semana passada quando Henrique Gomes foi proibido de falar sobre o assunto no ISEG.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Não há exemplos de sucesso eólico

Uma das perguntas a que um comunista menos gosta de responder é quando se pede para ele dar um exemplo de uma sociedade comunista próspera e justa, que não existe. Seria lógico que ao fim de algumas décadas de experiência comunista algum caso de sucesso pudesse ser destacado. A menos que o comunismo não estivesse destinado a vingar.Ver o que acontece no mundo e procurar as melhores práticas parece-me uma conduta inteligente e de bom senso. A energia eólica tem uma história parecida ao comunismo, depois de décadas de experiência e de extraordinários investimentos não é possível apontar um país no mundo onde a produção eléctrica a partir do vento tenha tomado uma parte significativa do mix gerador, quanto mais dominante. Portugal é, pelas minhas contas, o exemplo mundial de maior integração de energia eólica que existe. Noutros países com aposta eólica casos dos EUA, Dinamarca, Alemanha, Itália, Austrália ou Espanha a produção eléctrica é feita maioritariamente por centrais termoeléctricas.

À semelhança do comunismo o muro de Berlim da energia eólica está a cair. É cada vez mais complicado os governos encontrarem suporte político para manter por meios artificiais a existência de energia eólica e ela apresta-se para começar a definhar.

Matt Ridley é um conhecido jornalista britânico e contestatário das alterações climáticas. O seu último artigo de opinião na revista The Spectator é um bom resumo da incoerência e insustentabilidade que tem suportado a aposta eólica e no qual destaco:
To the nearest whole number, the percentage of the world’s energy that comes from wind turbines today is: zero(...)If wind power was going to work, it would have done so by now.
I have it on good authority from a marine engineer that keeping wind turbines upright in the gravel, tides and storms of the North Sea for 25 years is a near hopeless quest, so the repair bill is going to be horrific and the output disappointing.
Muito se tem dito sobre a sub-orçamentação do desmantelamento das centrais nucleares inglesas mas veremos até que ponto os custos de manutenção de parques eólicos offshore não estejam a ser avaliados optimisticamente.
The total carbon emissions saved by the great wind rush is probably below 1 per cent, because of the need to keep fossil fuels burning as back-up when the wind does not blow. It may even be a negative number.
O facto de as centrais térmicas a funcionar em back-up operarem fora das condições ideais penaliza a emissão de poluentes por unidade de energia produzida.
So even if you accept the most alarming predictions of climate change, those turbines that have ruined your favourite view are doing nothing to help. The shale gas revolution has not only shamed the wind industry by showing how to decarbonise for real, but has blown away its last feeble argument — that diminishing supplies of fossil fuels will cause their prices to rise so high that wind eventually becomes competitive even without a subsidy.
Remeto para um dos últimos posts no blogue.
Even in a boom, wind farms would have been unaffordable — with their economic and ecological rationale blown away. In an era of austerity, the policy is doomed, though so many contracts have been signed that the expansion of wind farms may continue, for a while. But the scam has ended.
Como escrevi creio que no mundo ocidental 2010 terá sido o melhor ano de sempre para as renováveis intermitentes. Nos países emergentes, onde a instalação de parques solares e eólicos foi em boa parte financiada pelos países mais industrializados, não antevejo que o crescimento de potência renovável intermitente dure muitos mais anos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Índices bolsistas americanos em máximos

Gráfico S&P500 últimos 3 anos (velas diárias)
Existem opiniões económicas para todos os gostos. Confesso que por vezes me sinto perdido com tanta informação e muitas vezes sem capacidade técnica para a filtrar. O ideal seria congregar a opinião de toda gente e produzir um resultado ponderado. Felizmente esse indicador de opinião existe, chamam-se índices bolsistas. Apesar de estar a perder a sua relevância, o índice americano S&P500 ainda é a grande referência mundial. Como se pode ver pelo gráfico ao lado dos últimos 3 anos (praticamente desde o fundo de 2009) este índice das 500 maiores empresas americanas está em máximos desde a queda brutal de 2008. Na semana passada chegou mesmo a estabelecer uma nova referência. O S&P500 não estaria a bater em máximos se a maioria dos investidores não tivesse uma opinião favorável sobre o futuro da economia americana (e que se pode extrapolar para a economia mundial). Não apenas o S&P500 mas também o mais antigo índice bolsista - Dow Jones - está perto de máximos, mas desta vez históricos como se pode ler neste artigo de opinião de Ulisses Pereira (na minha opinião um excelente analista técnico a nível mundial).

Ainda é preciso que o rompimento destes máximos seja confirmado mas tal vier a acontecer creio que temos excelentes indícios de que a economia mundial está a recuperar. E com a recuperação da economia o mundo voltará à quase imutável tendência de necessitar sempre mais de fornecimento de energia.

sexta-feira, 2 de março de 2012

China tem reservas de shale gas para 200 anos

Via espectador interessado fui ao encontro desta notícia do jornal The Telegraph que avança que a China tem a maior reserva mundial de gás natural xistoso, cerca do dobro da dos EUA. Em teoria, existe potencial para cobrir as necessidades do país mais populoso do mundo durante 200 anos. Este potencial está a começar a ser solto pelas grandes multinacionais na área casos da Chevron e da Shell.

O impacte da exploração de shale gas na China poderá ser tremendo. A começar pelo ambiental caso a China decida fazer pesar mais o gás natural, em detrimento do carvão, no seu mix electroprodutor.

Mas também no preço mundial do gás natural que se deverá manter estável ou até mesmo baixar nos próximos anos dado que a China poderá replicar a independência energética que os EUA estão a perseguir graças ao shale.

Para as energias renováveis intermitentes o futuro é cada vez menos promissor. A tão ambicionada paridade de custo de produção estará cada vez mais distante. A justificação para a manutenção de tarifas feed-in terá cada vez menos consistência à medida que mais shale gas fora explorado no mundo. Idem para a energia nuclear que tem no shale gas o seu maior concorrente.
Valores não actualizados de reservas estimadas de shale gas. A notícia do The Telegraph menciona 25 trilhões (americanos) de metros cúbicos para a China

quinta-feira, 1 de março de 2012

APREN ameaça processo jurídico contra cortes nas rendas

António Sá da Costa, Presidente da APREN, tem tentado, ao longo de anos, convencer os portugueses que as energias renováveis intermitentes (eólica e solar) são competitivas e estratégicas para o país. Um dos últimos grandes esforços de mistificação da associação - o estudo da consultora Roland Berger -custou aos portugueses quase €280.000.


Mas quando Sá da Costa começa a sentir a actual política de incentivos ser ameaçada atira as conclusões do estudo e toda a sua retórica para trás das costas e ameaça recurso à via jurídica. Nada de surpreendente ou que já não tivesse previsto neste blog. Desde o começo do ano Sá da Costa vinha mostrando na imprensa o seu desconforto em relação às imposições da troika relativamente aos apoios concedidos à geração eléctrica em Portugal. As energias renováveis intermitentes são incapazes de sobreviver sem as actuais rendas garantidas que tornam este negócio isento de risco para os seus promotores. O fim das subvenções é uma sentença de morte para os associados da APREN.


Acredito que muitos portugueses que viram parte dos seus ordenados cortados e pagam uma das mais caras electricidades da Europa compreendem a posição de Sá da Costa.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um habitante de Fukushima que não passa sem cigarros

O jornal Expresso conta a história engraçada de um japonês que vive na zona de exclusão da central nuclear de Fukushima. Evacuado como todos os seus conterrâneos, Naoto Matsumura de 52 anos, regressou, à revelia das autoridades, para a sua vila onde é o único habitante. Passa os dias a cuidar das plantações e animais, ou do que resta deles. Muitos morreram de fome por não ter havido tempo para abrir os estábulos durante a evacuação das pessoas.

O engraçado da história é que Naoto Matsumura tem uma dieta alimentar pouco variada e fuma muito. Diz que para se aliviar do stress de viver privado das normais condições de vida e da perda do seu património. Os hábitos de vida menos saudável deste agricultor, semelhantes aos de muitas pessoas no mundo moderno, terão um impacte na sua vida maior do que as consequências da libertação da radiactividade da central nuclear. A diferença é que Matsumara tem a coerência de temer tanto com as consequências de umas como das outras.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Eólica algarvia amiga das aves

O Expresso notícia que o parque eólico do Barão de S. João em Sagres tem um sistema de protecção das aves migratórias único no mundo. A notícia poderá surpreender muita gente em Portugal não pelo sistema mas por tomarem conhecimento que os aerogeradores matam aves. Cá não existem estudos sobre este assunto ou os que existem não são divulgados mas é um facto unânime e que já foi abordado pelo Ecotretas.
É de louvar este esforço de poupança de vida animal mas a solução encontrada é caricata. Com o auxílio de um radar e binóculos vigilantes apercebem-se da aproximação de pássaros e comandam a paragem dos aerogeradores que se processa em menos de 4 minutos. Em todo o caso, os aerogeradores estão parados ou a rodar a baixa velocidade a maior parte do tempo mas o método é possível principalmente porque o parque tem uma potência de apenas 50MW irrelevante para estabilidade da rede eléctrica. Imagine-se se este parque fosse uma peça importante do fornecimento de energia eléctrica de base. Quando víssemos um bando de aves a passar ficávamos a saber que daí a uns minutos deixaríamos de ter electricidade em casa ou no trabalho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Futuro do nuclear a ser construído

Apesar do acontecimento em Fukushima ter criado um compasso de espera 2012 deverá recolocar os vários projectos de construção de novas centrais nucleares no mundo de novo em cima da mesa. Ainda para mais por terem começado a existir sinais de que a economia mundial está prestes a sair da crise que se abateu sobre ela em 2008. Contrariamente ao que se veicula penso que será mais a exploração de novas formas de gás natural e não Fukushima a poder boicotar este renascimento do nuclear que, para já, parece estar a afirmar-se.

HTGR Antares da Areva
O renascimento do nuclear terá que ser acompanhado necessariamente por inovação no desenho de reactores. A regulamentação será cada vez mais apertada o que levará a uma obsolescência mais rápida das actuais tecnologias. Também a inovação na utilização das outras fontes evoluirá pelo que o nuclear terá de se aperfeiçoar para não morrer. A inovação e competitividade no nuclear é tanto mais importante pela pouca popularidade que tem entre as comunidades. Ainda que acredito que ela tenderá a melhorar não me parece que alguma vez o nuclear vá gozar de wishful thinking fantasioso como aquele que alimenta hoje em dia as fontes renováveis intermitentes. A energia nuclear terá de se continuar a impor pelos números.

Creio que a inovação acontecerá naturalmente desde que haja mercado e aí é preciso facilitação política. Quando digo facilitação não me refiro a apoios mas apenas a planeamento e legislação que permita a construção de novas centrais nucleares. Sou optimista ao ponto de achar que se esse espaço para o nuclear for criado a visão de Bill Gates de uma concorrência feroz e altamente inovadora de soluções nucleares surgirá.

Na semana passada houve duas notícias que ajudam a alimentar a convicção de que o nuclear está longe de estar morto. Da Índia chegou a notícia de que o governo local planeia, no começo de 2013, preparar o funcionamento (commission - uma etapa fundamental para a entrada ao serviço de um reactor) do seu primeiro reactor nuclear de 4ª geração. Trata-se do primeiro de um conjunto de cinco reactores de neutrões rápidos ou Fast breeder reactors (FBR)com uma potência de 500MWe, muito superior ao experimental de 13MW existente no país ou ao de 20MW que a China ligou à rede no verão passado.

Os FBR têm a capacidade de consumir urânio 238 (o mais abundante) e por isso têm um consumo específico de urânio muito mais baixo do que a actual geração. Os FBR conseguem inclusivamente consumir resíduos produzidos nos reactores actuais. Este novo reactor constitui o começo da segunda fase do prgrama nuclear indiano, um dos mais ambiciosos do mundo. A primeira fase começou na década de 70 com a construção de reactores que usam água pesada para arrefecimento (Pressurized Heavy Water Reactor - PHWR) e que se ofram tornando cada vez mais potentes à medida que o país ia acumulando know-how. A Índia tem neste momento alguns PHWR em construção. Os FBR destinam-se precisamente a consumir os resíduos que os PHWR geraram ao longo das últimas décadas. A terceira fase terá lugar com o lançamento daquilo a que os indinao designam de advanced reactor que será capaz de consumir tório 232, um material quatro vezes mais disponível na Terra do que o urânio 238 e do qual a Índia detém as maiores reservas mundiais.

Nos EUA, país que recentemente aprovou a construção da sua primeira central nuclear em 30 anos,viu agora a Next Generation Nuclear Plant Industry Alliance (NGNP) seleccionar um design de reactor de 4ª geração arrefecido a gás. A NGNP é uma joint venture criada pelo governo central em 2005 que visou juntar esforços entre várias empresas ligadas ao sector energético para desenvolver e contruir até 2021 um reactor High-temperature Gas-cooled Reactor (HTGR) arrefecido a gás em alternativa à água comum nos reactores actuais. A escolha caiu no reactor Antares da francesa Areva. A utilização de um refrigerante alternativo permite aumentar a temperatura de funcionamento do reactor até perto dos 1000ºC. Para além da maior eficiência do reactor na produção de energia eléctrica as temperaturas elevadas que o gás pode atingir permitem-lhe gerar calor ou produzir hidrogénio em cogeração. Isso torna este tipo de reactor bastante apetecível para outras indústrias e não apenas as que exploram a produção eléctrica. A aliança NGNP é constituída por algumas petrolíferas e outras empresas que actuam no sector químico.

A industrialização de reactores de 4ª geração será um passo decisivo para o futuro da energia nuclear no mundo. A eficiciência destes reactores afasta definitivamente questões de duração de reservas de urânio. E por diminuirem grandemente a quantidade e perigosidade dos resíduos que criam colocam-se noutro patamar de segurança face aos reactores actuais.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Entrevista a ex-presidente da ERSE

Fica aqui uma entrevista longa mas interessante com o ex-presidente da ERSE Jorge Vasconcelos da qual eu destacaria os comentários sob a ausência de concorrência na produção eléctrica de Portugal e Espanha que impedirá que o mercado grossista ibérico se liberalize efectivamente nos próximos dez anos, a menos que alguns direitos adquiridos sejam revogados.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Europa dá vida ao nuclear

Manifestações de apoio e repúdio em Garona
Na semana passada tivemos dois sinais de que a energia nuclear poderá conhecer nova fase expansionista na Europa agora que muitos países revêem as suas metas de integração de fontes renováveis intermitentes.

Depois de ter dividido a opinião pública espanhola o encerramento da central nuclear de Garona decretado pelo anterior governo socialista para ter lugar em 2013 foi agora revisto pelo PP. O executivo de Rajoy decidiu prolongar por mais cinco anos (com a possibilidade de um sexto) o tempo da vida desta central que foi ligada à rede em 1971. Apesar da crise espanhola que, à semelhança do que está acontecer em Portugal, deverá levar o consumo eléctrico a diminuir no país vizinho o governo considera que não é oportuno nem estratégico prescindir da geração eléctrica em centrais nucleares.

Também na semana passada David Cameron e Nicolas Sarkozy, por ocasião da cimeira franco-inglesa, asinaram acordos bilaterais de cooperação no desenvolvimento de novas centrais nucleares no Reiuno Unido. As Ilhas britânicas querem tornar-se um dos países com maior peso de nuclear no seu mix electroprodutor e empresas com grande experiência no sector, caso da EDF e Areva, estão a participar activamente na renovação do parque electroprodutor britânico.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Debate televisivo prós e contras: ausência do nuclear

Esta semana irei comentar mais detalhadamente alguns aspectos debatidos no programa Prós e Contras da passada segunda-feira mas hoje vou referir-me ao aspecto da ausência do nuclear no debate que já vi abordado em mais do que um local, nomeadamente pelo Ecotretas que é contra a energia nuclear em Portugal por razões que discordo mas que compreendo.

Acho que os defensores do manifesto fizeram bem em não mencionar o tema nuclear. Em primeiro lugar por que nem todos apoiam a solução e em segundo lugar porque não existe ainda em Portugal maturidade e objectividade para debater este assunto pacificamente. Como o Ecotretas bem ressalvou o programa teve alturas de quase descontrolo e a discussão do nuclear poderia ter consequências ainda mais desastrosas. Basta referir que no final do programa quando Patrick Monteiro de Barros preferiu a palavra nuclear Carlos Pimenta quase entrou em colapso nervoso. E Carlos Pimenta tem formação de engenharia, é supostamente entendido no sector energético e portanto deveria ter uma visão mais pragmática sobre o tema. Não há condições para se debater nuclear numa praça tão pública e, ao contrário de uma sugestão no programa, sou totalmente contra um referendo em Portugal sobre este assunto. Na verdade, sou contra referendos de cariz técnico que exijam conhecimentos que a maioria dos portugueses não tem e por isso nunca poderia votar conscientemente. A energia nuclear deve ser discutida por quem sabe e em espaços próprios.

Sobre a introdução da energia nuclear em Portugal a questão não é se mas quando. Se há coisa sobre a qual tenho a certeza absoluta é que a energia nuclear fará um dia parte do mix produtivo de Portugal. Talvez não no meu tempo de vida mas fará. A central nuclear é como o automóvel, o telemóvel ou a caixa ATM ou a ainternet. O seu benefício é de tal forma gritante e óbvio que lutar contra ela exige argumentos falaciosos e apaixonados como aqueles que Carlos Pimenta esgrimiu no debate.

A aversão nacional à energia nuclear faz-me lembrar a luta dos comerciantes tradicionais contra os centros comerciais e os hipermercados. Uma luta que tinha aquela emblemática e aberrante distorção de as grandes superfícies estarem proibidas de abrir ao domingo. Supostamente era para defender o dia da família mas sempre me lembro de dizer que essa medida tinha os dias contados. Quem beneficiava com isso? Apenas os comerciantes tradicionais.

Permitir que a energia eléctrica de base do país venha de centrais nucleares é abrir as grandes superfícies ao domingo. Eu sei que vai acontecer um dia mas faço força para que seja quanto antes para bem de todos os portugueses.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A crise europeia, o aquecimento global e o ocaso do sector renovável

Os dois últimos artigos de opinião do site Energy Tribune merecem uma breve reflexão. Neste primeiro Peter Glover resume os anunciados cortes nos apoio às energias renováveis que estão a acontecer um pouco por toda a Europa motivados pela crise europeia encabeçada pela crise da dívida grega. Este cortes são circunstanciais, isto é, resultam de uma pressão económica e não da assunção pelos governos europeus da insustentabilidade do modelo eletroprodutor renovável. A questão natural que se coloca é, passada esta tormenta, os subsídios serão reestabelecidos?

Até há uma semana a minha opinião é de que não, jamais os países europeus subsidiarão tanto as energias renováveis como até aqui. Num post recente até considerei que no mundo desenvolvido (pelo menos de acordo com a designação do séc. XX) 2010 marcou o pico da instalação de potencia renovável. Mas, e volto a frisar, até há uma semana, estava convencido que mal a Europa começasse a recuperar os governos restituariam alguns dos subsídios. É essa a posição espanhola ou portuguesa que divulguei aqui. Em boa retórica política foi dito que os cortes são por tempo indeterminado e a interpretação que fiz foi: só quando houver dinheiro!

Mas na semana passada houve um acontecimento que poderá ter ditado a não restituição dos subsídios agora eliminados. O lançamento do livro "Die Kalte Sonne" pelo conhecido ambientalista alemão Fritz Vahrenholt que vem pôr em causa o aquecimento global antropogénico. Este acontecimento, já abordado pelo Ecotretas, tem o potencial de abalar a crença de uma das sociedades mais acérrimas na sua defesa. Os objectivos alemães e europeus na integração de fontes renováveis resultam em grande medida de se acreditar que o planeta está a aquecer.

Junte-se à falência da teoria do aquecimento global a revolução do shale gas e parece-me cada vez menos provável que as fontes renováveis de energia eléctrica voltem a ter a popularidade que gozaram até aqui. Desde a semana passada que acho que as decisões espenhol e portuguesa de parar futuros projectos renováveis serão permanentes.

Só espero é que não se passe de um extremo ao outro, isto é, temo que o carvão volte a ser aceite. Para dar três exemplos, temo que a Alemanha coloque o carvão (de que possui reservas) à frente do nuclear e do gás natural como fonte de energia primária. Temo que a Polónia abrande a sua aposta nuclear ou que a Dinamarca deixe de perspectivar uma inevitável reforma das suas centrais a carvão.

É que entre estes dois cenários, excesso de renováveis ou excesso de carvão não sei qual o pior. Mas creio que à semelhança do resto do mundo será o gás natural a fonte a mais crescer na produção eléctrica europeia. Quanto ao nuclear, como tenho escrito, a exploração de shale gas e o fim da teoria do aquecimento global não lhe augura um futuro risonho no médio prazo.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O pragmatismo turco

Já tenho abordado a estratégia energética turca simplesmente porque é um dos concorrentes naturais do nosso país. Sabendo que a competitividade do custo da energia eléctrica é um factor de competitividade das empresas, também das exportadoras, é útil saber aquilo que andam a fazer os nossos competidores. Há umas semanas referi o projecto turco de construção de duas novas centrais nucleares em parceria com japoneses.

Agora o governo de Ankara juntou-se a sul coreanos para desenvolver duas novas centrais a carvão. O objectivo é reduzir a dependência do gás russo e iraniano. Antes de ser pró-nuclear sou anti-carvão mas consigo entender o ponto de vista, a ideia de independência energética é utópica mas a segurança energética deve ser uma preocupação primordial de um país, principalmente um situado numa região tão sensível.  Com as novas centrais nucleares e a carvão a Turquia pretende acompanhar a procura crescente por electricidade na economia turca e ao mesmo tempo reduzir de 50 para 30% o peso do gás no seu mix electroprodutor.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A obsessão com a criação de emprego nas renováveis

Os defensores portugueses das renováveis têm dois argumento obsessivos, a potência instalada e a criação de emprego. É compreensível, não têm outros números em que fiquem bem na fotografia. Sobre a irrelevância da potência instalada face à energia produzida já me referi várias vezes, este post debruça-se sobre a a propalada criação de emprego. A APREN, com toda a sua demagogia, previa, em 2008, que em 2015 as energias renováveis criariam 60.800 empregos. Um número perfeitamente ilusório que testemunha a eufórica complacência pró-renovável que se vivia em Portugal antes da recessão mundial começar a trazer alguma objectividade a alguns observadores do sector. Hoje, até a APREN terá de rever os seus números depois do anúncio em relação ao congelamento de novos projectos renováveis. Não vou fazer uma contabilidade dos empregos efectivamente gerados pelas fontes renováveis em Portugal até porque a discussão não precisa de chegar tão longe para se desmontar este argumento falacioso dos defensores das renováveis. E não precisa por três razões fundamentais:
  1. Contar empregos criados e não os dividir pela energia eléctrica produzida não nos diz nada sobre a importância desses empregos. O sector eléctrico não foge à necessidade de eficiência e a eficiência só se mede reduzindo cada emprego à energia eléctrica que ele coloca na rede.
  2. Embora aparentemente desconhecido em Portugal, nos outros países europeus que apostaram fortemente em energias renováveis olha-se para o sector de uma forma mais científica e estudos aí realizados revelam que as energias renováveis destroem mais empregos na economia real do que aqueles que criam. Em Portugal, onde ao contrário dos países citados nunca existiu uma indústria de equipamentos para parques eólicos e solares, o rácio entre empregos criados e destruídos, principalmente nos mais qualificados, é ainda pior. Isso não interessa aos empresários que têm beneficiado das subvenções às renováveis mas é central numa análise do contributo positivo que o sector trouxe à economia portuguesa e à geração de emprego.
  3. Mas acima de tudo a criação de emprego não é um vantagem quando se fala de sector electroprodutor. Um centro electroprodutor é tanto melhor quanto menos empregos gerar. 
Confesso sentir algum constrangimento em escrever sobre conceitos tão básicos de racionalidade empresarial mas quando se usa tantas vezes o argumento da criação de emprego parece que nem toda a gente tem esta noção. A energia eléctrica não é um produto acabado que apela à emoção como um carro ou roupa ou um serviço diferenciado como um hotel de luxo ou um spa. É nesse tipo de produtos ou serviços que se consegue fazer diferença, seja na qualidade intrínseca ou tangível dos mesmo seja em valores mais abstractos e emocionais.

A energia eléctrica é um serviço básico, é um meio e não um fim em si mesmo. Pela particularidade de a energia eléctrica não ser um bem transaccionável e provir da mesma rede de distribuição nem sequer é possível distinguir a sua origem. Os consumidores não têm hipótese de fazer opções de origem da energia que consomem. Eu não sei se a energia eléctrica que me permite estar neste momento a escrever este texto no computador veio de Sines, Espanha ou de um parque eólico qualquer. Se um restaurante tiver um empregado por cada mesa ao invés de 10 mesas o serviço é com certeza melhor. Mas se amanhã a central do Carregado contratar mais 50 trabalhadores isso não mudará nada na forma como a máquina de lavar roupa cá em casa trabalha. Pode soar mal mas o sector electroprodutor ideal é aquele que não emprega ninguém. Ou aquele que emprega tão pouca gente quanto seja possível sem comprometer a sua eficiência.

Outra coisa completamente diferente seria os defensores portugueses das renováveis vangloriarem-se da criação de empregos qualificados indirectos na pesquisa e desenvolvimento, não na produção de energia. Porém isso é coisa que não existe. Isso seria estruturante e revelaria saúde e pujança do sector. Mas como se sabe em Portugal nunca houve visão para tal e neste momento é tarde. É tarde porque 2010 deverá ter marcado o pico da aposta renovável no mundo ocidental. E é tarde porque os chineses estão a tomar conta da indústria de fabrico de turbinas eólica e painéis solares.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Defender nuclear em Portugal é uma uphill battle

Defender a energia nuclear em Portugal é aquilo a que os ingleses designam de uphill battle. A maioria dos portugueses tem um medo inexplicável e não justificado em relação à energia nuclear. Vou admitir que seja a maioria pois começo a achar que existe uma grande minoria silenciosa que não é anti-nuclear. Atribuo esse medo ao desconhecimento. Mas a questão é que mesmo pessoas aparentemente informadas sobre o sector energético são incapazes de serem objectivos quando se fala de energia nuclear. Se os especialistas não são capazes de ser objectivos como se pode esperar que a maioria da população seja?
Um bom exemplo foi dado no programa Olhos nos Olhos 18 da passada terça-feira 31 de Janeiro. Ainda que não seja um especialista em energia nuclear Agostinho Pereira de Miranda é um advogado que há muitos anos trabalha com empresas no sector petrolífero. Prova do seu conhecimento do sector é dado no video acima quando, revelando dados interessantes sobre as reservas e o custo de exploração de tar sands no Canadá, desmonta a ideia do peak oil.

Mesmo não sendo um especialista em energia nuclear Agostinho Miranda não se furtou a comentar sobre ela. Ironicamente é precisamente com um argumento de peak uranium que Agostinho Miranda afasta a viabilidade desta forma de energia para solucionar o fornecimento de energia eléctrica numa escala mundial. E se Agostinho Miranda vê como desactualizada a teoria do peak oil qualquer pessoa minimamente entendida em energia nuclear sabe que Agostinho Miranda está redondamente enganado em relação ao nuclear. Os equívocos começam no minuto 7:00 deste segundo filme:
Primeiro argumento: Impacte ambiental. Começa por mencionar o custo ambiental do ciclo de vida de uma central nuclear. O custo ambiental de uma central nuclear tem de ser vista em relação à energia que ela produz. Como esta produz quantidades enormes de energia eléctrica a partir de pequenas quantidades de urânio a pegada ambiental por MWh produzido é das mais baixas (só comparável à hídrica) de todas as fontes de energia eléctrica conhecida.
Segundo argumento: o custo elevado. França tem a energia eléctrica mais barata da Europa. A Alemanha com a paragem das centrais nucleares viu o preço da electricidade aumentar. Os países com mais renovável tem as energias mais caras da Europa. Ouço muitos detractores do nuclear usar a segurança como razão mas o preço da electricidade? Éuma ideia ainda mais gasta do que o peak oil.

Terceiro argumento: o tempo de construção. Per si não é um impedimento, requer planeamento estratégico de longo prazo. Em Portugal onde isso não existe pode considerar-se uma desvantagem. O grande inconveniente do prazo de construção alargado de uma central nuclear está nos custos decorrentes de derrapagens na construção. Ainda assim esse inconveniente não detém vários países de apostar fortemente na construção de centrais nucleares.

Quarto argumento: falta de reservas de urânio. Agostinho Miranda afirma que para que a energia nuclear fornecesse toda a energia do planeta seriam precisos 8.000 reactores nucleares ao invés dos actuais 450 (6%) e que para isso não existe combustível necessário. Os números estão correctos mas a argumentação é descabida. Primeiro, provavelmente apenas de carvão existem reservas para se pensar numa planeta com uma única fonte de energia. Depois Agostinho Miranda sabe que é tecnicamente inviável nas próximas décadas substituir o petróleo por electricidade no sector dos transportes. Fazer cenários de 100% de energia de origem nuclear é inútil e só revela parcialidade intelectual.
Mais, se o mundo decidisse apostar de forma tão decidida em centrais nucleares a investigação e desenvolvimento teria um enorme incremento de financiamento. Muito mais rapidamente a 4ª geração de centrais e a utilização de tório como combustível seria industrializado. Com estas inovações que se perspectivam a existência de reservas de combustível nuclear torna-se um problema inexistente. O peak uranium de Agostinho Miranda coloca-se tanto como o peak oil que o próprio afasta.

Logo de seguida cita Churchil para afirmar que o futuro está na diversificação de fontes. Afasta a energia nuclear por esta não ser capaz de fornecer toda a energia que o mundo precisa mas as renováveis fazem sentido num cenário de diversificação de fontes. Objectivamente Agostinho Miranda não consegue eliminar a solução nuclear e fá-lo esgrimindo entraves absurdos, entraves que não coloca a outras fontes de energia.

Defender o nuclear em Portugal é não só esclarecer quem tem preconceitos infundados sobre o assunto mas também contrariar argumentos inconsistentes de pessoas supostamente informadas. É um duplo desafio, uma uphill battle!